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Todos os pensamentos inteligentes já foram pensados; é preciso apenas tentar repensá-los
JOHANN WOLFGANG VON GOETHE





 


A Língua Portuguesa Agradece
Cadê a vírgula?

 
A Língua Portuguesa Agradece


 
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Cadê a vírgula?
Volta e meia, acontecem campanhas ou manifestações para as quais a vírgula nunca é convidada: “Reage Rio”, “Vota Brasil”, “Deveria ser: “Reage, Rio”; “Vota, Brasil”; Quer saber por quê.
Não é difícil entender. Você já deve ter ouvido falar da famosa regrinha que diz ser proibido separar por vírgula o sujeito do predicado. A explicação é simples: se pusermos vírgula entre o sujeito e o verbo, o sujeito vira vocativo.
Em “Dr. Carlos Pimenta vem à reunião”, temos uma afirmativa. O Dr. Carlos Pimenta é o sujeito da forma verbal “vem” (=presente do indicativo).
Em “Dr. Carlos Pimenta, vem à reunião”, temos agora um chamamento, um convite ou uma ordem. O Dr. Carlos Pimenta é um vocativo e a forma verbal “vem” está no modo imperativo.
Quando dizemos “O leitor de O Globo sabe mais”, não há vírgula porque “o leitor de O Globo” é o sujeito do verbo “saber”. Em razão disso, na propaganda “Quem lê sabe”, não deveríamos usar vírgula, pois “quem lê” é sujeito.
Nesse caso específico, quando os verbos ficam lado a lado, há autores que aceitam a vírgula entre o sujeito e o predicado. Eu prefiro não criar exceções. Assim como em “Quem avisa amigo é” e “Quem bebe Grapete repete” não há vírgula, em “Quem lê sabe”, “Quem estuda passa” e “Quem se desloca recebe” também devemos evitar a vírgula.
Se o problema anterior é polêmico, no caso das campanhas e das manifestações não há perdão. Ninguém está afirmando que o Rio reage, que o Brasil vota. O verbo está na forma imperativa e a seguir está o vocativo. A vírgula é obrigatória: “Reage, Rio”; “Vota, Brasil”;
Será que as campanhas e manifestações fracassaram porque esqueceram a vírgula? 

Se beber, não use o ponto e vírgula

Em frente ao Hospital Pinel, no Rio de Janeiro, há um painel luminoso da CET-Rio. Com certa frequência, lá encontrávamos a seguinte mensagem:
“Se dirigir; não beba
se beber; não dirija”
Certamente o hospital não tem culpa alguma. Louco ou bêbado estava quem escreveu a tal frase. Não pela mensagem em si, mas pela pontuação da frase. Provavelmente alguém disse para o autor: “Olha, tem um ponto e vírgula aí.” E o “letrado”, por garantia, tascou logo dois.
Ora, onde encontramos o ponto e vírgula bastaria a vírgula, pois se trata de uma oração subordinada adverbial condicional deslocada: “Se dirigir, não beba”. O uso do ponto e vírgula seria perfeito entre as duas ideias, apontando, assim, uma pausa maior que a vírgula:
“Se dirigir, não beba; se beber, não dirija.”
É para isso que serve o ponto e vírgula: para indicar uma pausa maior que a vírgula e não tão forte quanto o ponto-final.
Portanto, o autor da frase acaba de perder 3 pontos na sua carteira de habilitação, por uma infração média contra a gramática. 

Para que serve o ponto e vírgula?

Fundamentalmente, o ponto e vírgula indica uma pausa maior que a vírgula.
Vejamos as situações em que o seu emprego é mais frequente:
1a) para separar os membros de um período longo, especialmente se um deles já estiver subdividido por vírgula:
“Na linguagem escrita é o leitor; na fala, o ouvinte.”
“Nas sociedades anônimas ou limitadas existem problemas: nestas, porque a incidência de impostos é maior; naquelas, porque as responsabilidades são gerais.”
2a) para separar orações coordenadas adversativas (=porém, contudo, entretanto) e conclusivas (=portanto, logo, por conseguinte):
“Ele trabalha muito; não foi, porém, promovido.” (indica que a primeira pausa é maior, pois separa duas orações)
“Os empregados iriam todos; não havia necessidade, por conseguinte, de ficar alguém no pátio.”
3a) para separar os itens de uma explicação:
“A introdução dos computadores pode acarretar duas consequências: uma, de natureza econômica, é a redução de custos; a outra, de implicações sociais, é a demissão de funcionários.”
4a) para separar os itens de uma enumeração:
“Deveremos tratar, nesta reunião, dos seguintes assuntos:
a) cursos a serem oferecidos, no próximo ano, a nossos empregados;
b) objetivos a serem atingidos;
c) metodologia de ensino e recursos audiovisuais;
d) verba necessária.
 

Comida a quilo e entregas em domicílio

Hoje viraram moda os tais restaurantes self service, ou “serve-serve” como preferem alguns.
Há também os restaurantes que fazem “entregas à domicílio”. A crase seria um absurdo, já que domicílio é palavra masculina. Na verdade, nem a preposição “a” se justifica. Se o restaurante faz entregas em casa, no escritório, no quarto do hotel, por que fazer entregas “a domicílio”? O mais adequado, portanto, é fazer “entregas em domicílio”.
Quanto à desgraça da “comida à kilo”, é bom que você saiba que oficialmente a letra “k”, na língua portuguesa, só deve ser usada em palavras derivadas de nomes estrangeiros: darwinismo (de Darwin); em símbolos (K = potássio, Kr = criptônio); em abreviaturas: kg, km, kw (= minúsculas e sem plural). Ao escrevermos por extenso, devemos substituir a letra “k” por “qu”: quilograma, quilômetro, quilowatt.
É importante lembrar também que grama (= unidade de massa) é substantivo masculino: um grama, duzentos gramas, trezentos gramas. Isso significa que é impossível haver crase. A comida deve, portanto, ser vendida a quilo (=com “qu” e sem o acento da crase).
É lógico que os restaurantes correrão um risco: o brasileiro gosta tanto de “comida à kilo” que poderá desconfiar da qualidade da verdadeira comida a quilo.
E outra dúvida é: DUZENTOS ou DUZENTAS gramas?
O certo é “duzentos gramas”.
“Duzentas gramas” só se fossem “duzentos pés de grama”, aquele vegetal que encontramos em muitos jardins.
A tal história de pedir “duzentas gramas de presunto” está errada. Pior ainda é “duzentas gramas de mortandela”. Sugiro até que você dê para algum “mendingo”!!!
A palavra GRAMA, para peso (=unidade de massa), é um substantivo masculino, por isso o correto é pedir “duzentos gramas de mortadela para o mendigo”. 

Comprou o apartamento e a vista. Tudo à vista.
O uso do acento da crase na locução “à vista” sempre gerou muita polêmica. Alguns autores, entre eles o mestre Napoleão Mendes de Almeida, afirmam não haver crase em “a vista”, pois seu correspondente masculino é “a prazo”. Isso comprovaria a ausência de artigo definido. A crase aa se comprova quando o correspondente masculino fica ao: “Referiu-se à carta” (=Referiu-se ao documento). O “a” de “a vista” seria apenas a preposição que introduz as locuções adverbiais.
Outros estudiosos, porém, como o mestre Adriano da Gama Kury, defendem o uso do acento grave indicativo da crase para todas as locuções (adverbiais, prepositivas e conjuncionais) de base feminina: à beça, à deriva, à direita, à distância, à francesa, à mão, à noite, à revelia, à toa, à vista, à vontade, às cegas, às claras, às vezes, à beira de, à base de, à custa de, à medida que, à proporção que…
O argumento usado pelo professor Adriano da Gama Kury é “o uso tradicional do acento pelos melhores escritores da nossa língua” e “a pronúncia aberta do a, em Portugal, nessas locuções, tal como qualquer a resultante de crase – diferente do timbre fechado do a pronome, artigo ou preposição”.
Eu também sou a favor do uso do acento grave em todas as locuções de base feminina. Além da simplificação, há o problema da clareza. “Comprar a vista” é bem diferente de “comprar à vista”. Sem o acento da crase, “a vista” poderia ser o objeto direto, ou seja, aquilo que se está comprando. “A vista” seria o panorama, ou pior, o olho. Mas aí já seria demais.
Para evitar confusões, quando quisermos indicar o modo como compramos ou vendemos alguma coisa, o melhor mesmo é escrevermos “à vista”, com acento grave.
Afinal, servir “à francesa” é bem diferente de “servir a francesa”. Ou não? 

Vamos acabar com os excessos
Ultimamente tenho observado um vício de linguagem muito curioso. São frases do tipo: “Aqui está o documento que ontem eu falei dele”; “São projetos que a direção acredita neles”; “São bons argumentos que concordamos com eles”.
Como se pode verificar, são exemplos extraídos do meio empresarial. É um vício típico da linguagem oral que também aparece na linguagem de profissionais de quem a sociedade espera a chamada língua padrão.
Para quem não entendeu a que vício estou me referindo, eu explico. Há pronomes sobrando. Em “Aqui está o documento que ontem eu falei dele”, o pronome relativo “que” e o pronome pessoal “(d)ele” substituem o mesmo substantivo (=documento). Bastaria usar o pronome relativo. O “dele” está sobrando. A causa é fácil de explicar: o brasileiro, em geral, tem muita dificuldade em respeitar a regência quando usa os pronomes relativos. Temos o hábito de usar simplesmente “que”, mesmo quando a regência do verbo ou do nome exija uma preposição. O uso de “falei dele” comprova que sabemos que a regência do verbo FALAR pede a preposição “de”.
Segundo a língua padrão, em vez de “Aqui está o documento que ontem eu falei”, deveríamos dizer “…o documento de que (ou do qual) eu falei”.
No segundo caso, o pronome “(n)eles” está sobrando. Se a direção acredita “em” projetos, “São projetos em que (ou nos quais) a direção acredita”.
E no terceiro exemplo, em vez de “São bons argumentos que concordamos com eles”, bastaria dizer “…argumentos com que (ou com os quais) concordamos”. 

A PRESIDENTE ou PRESIDENTA
Tanto faz. As duas formas, linguisticamente, são corretas e plenamente aceitáveis.
A forma PRESIDENTA segue a tendência natural de criarmos a forma feminina com o uso da desinência “a”: menino e menina, árbitro e árbitra, brasileiro e brasileira, elefante e elefanta, pintor e pintora, espanhol e espanhola, português e portuguesa.
Na língua portuguesa, temos também a opção da forma comum aos dois gêneros: o artista e a artista, o jornalista e a jornalista, o atleta e a atleta, o jovem e a jovem, o estudante e a estudante, o gerente e a gerente, o tenente e a tenente.
Há palavras que aceitam as duas possibilidades: o chefe e A CHEFE ou o chefe e A CHEFA; o parente e A PARENTE ou o parente e A PARENTA; o presidente e A PRESIDENTE ou o presidente e A PRESIDENTA…
O problema deixa, portanto, de ser uma dúvida simplista de certo ou errado, e passa a ser uma questão de preferência ou de padronização. No Brasil, é fácil constatar a preferência pela forma comum aos dois gêneros: a parente, a chefe e a presidente. É bom lembrar que a acadêmica Nélida Piñon, quando eleita, sempre se apresentou como a primeira PRESIDENTE da Academia Brasileira de Letras. Patrícia Amorim, desde sua eleição, sempre foi tratada como a presidente do Flamengo.
É interessante observar também que formas como CHEFA e PARENTA ganharam no português do Brasil uma carga pejorativa.
É possível, porém, que a nossa Dilma prefira ser chamada de PRESIDENTA seguindo nossa vizinha Cristina, que gosta de chamada na Argentina de LA PRESIDENTA.
Hoje ou amanhã teremos uma resposta definitiva. Espero. 

Serrar ou cerrar?
Se você se refere ao ato de cortar com serra ou serrote,
o verbo é serrar com “s”. Por outro lado, se o objetivo é fechar alguma coisa,
devemos cerrar com “c”.
Veja que perigo!
Comerciante deu ordem por escrito a seus empregados:
“Hoje quero todas as portas desta loja serradas exatamente às 20h”.
(serradas com “s”).
Foi atendido. No dia seguinte, ao voltar à loja, encontrou todas as portas serradas com “s”, ou seja, cortadas… Se ele queria as portas fechadas, deveria ser cerradas com “c”.
Outro perigo é a falta de visibilidade quando a neblina está muito forte. Quero saber se a cerração que ocorre com freqüência na serra é com “s” ou com “c”?
Se a neblina ou nevoeiro está muito forte, sem visibilidade, é porque há muita cerração com “c”. Não há relação alguma entre o fato de serra se escrever com “s” e a cerração, que vem de cerrar, no sentido de fechar, que se escreve com “c”.
Serração com “s” haveria, se muitas árvores estivessem sendo serradas, ou seja, serração com “s” é o ato de serrar, cortar.
Certa vez, li num bom jornal:
“Atleta serrou (com “s”) os punhos e vibrou intensamente”. Só se foi de dor!
É melhor, antes de vibrar, cerrar (com “c”, ou seja, fechou) os punhos.
E melhor mesmo é encerrar esse assunto.
Então não esqueça:
Serrar com “s” é cortar; cerrar com “c” é fechar.
Serração com “s” é o ato de “serrar com “s”, cortar”.
E a neblina, o nevoeiro forte é cerração com “c”. 

Palavra de rei se discute
Rex, regis, do latim, deu origem em português ao nosso REI. Daí palavras derivadas como regente (príncipe regente), regência (tríplice regência), Regina (rainha, em latim)…
Em gramática, regência é a parte que estuda o uso das preposições. É ela que nos diz qual preposição o nome exige e, no caso dos verbos, se há preposição ou não. É a regência que nos diz se o verbo é transitivo direto ou indireto.
Como é “coisa de rei”, ninguém pergunta por que devemos “fazer referência a”, “ter necessidade de”, “ser ávido por”, “ser semelhante a”… Ninguém quer saber por que verbos como VER, COMPRAR e ENCONTRAR são transitivos diretos, e GOSTAR DE, ACREDITAR EM, ANSIAR POR e CONCORDAR COM são transitivos indiretos.
Ninguém discute a regência de verbos e de nomes em que o uso da preposição na linguagem cotidiana está de acordo com o que ensinam as gramáticas normativas.
A regência merece discussão quando há divergência entre o que diz a tradição gramatical e o uso do nosso dia a dia. 

Existem vários verbos nesse caso. Vejamos dois exemplos: 

IMPLICAR,
no sentido de “resultar, acarretar, ter como
consequência”, segundo a gramática tradicional (Evanildo Bechara, Antônio Houaiss…) é verbo transitivo direto: “Isto implica erros grosseiros”; “Esta decisão implicará pagamento antecipado”.
A realidade, porém, tem-nos mostrado a presença constante da preposição “em”: “implica em erros grosseiros”; “implicará em pagamento antecipado”.
Este é o nosso problema: de acordo a regência clássica, IMPLICAR
é transitivo direto; segundo os linguistas modernos, também podemos usar o verbo IMPLICAR como transitivo indireto. Você decide.
É importante lembrar que, em nossos concursos oficiais, devemos considerar IMPLICAR um verbo transitivo direto.
VISAR é outro verbo que merece atenção. Com o sentido de
“dar visto, rubricar” ou de “mirar, apontar”, todos concordam que VISAR é verbo transitivo direto: “visar o cheque”; “visar todas as páginas da escritura”; “visar o alvo”; “visar o gol”.
A polêmica ocorre quando usamos o verbo VISAR com o sentido de “ter por fim ou objetivo”. Nesse caso, segundo a tradição (Evanildo Bechara, dicionário Aurélio…), VISAR é transitivo indireto: “visar ao bem-estar de todos”; entretanto, hoje em dia, muitos estudiosos, inclusive o dicionário Houaiss, já aceitam o verbo VISAR como transitivo direto ou indireto: “visar ao bem-estar” ou “visar o bem-estar de todos”.
Os verbos IMPLICAR e VISAR são apenas dois exemplos de que
podemos questionar a regência clássica, de como “se discute a palavra de rei”.
Não vejo nada errado nesta discussão. Crime, no meu modo de ver, é cobrar assuntos polêmicos em concursos públicos. 

Sito À ou NA Avenida Paulista
O uso das preposições sempre dá muita dor de cabeça.
Já sabemos que se entrega alguma coisa (=objeto direto) a alguém (=objeto indireto): “O rapaz entregou os documentos ao diretor”. Quando nos referimos ao lugar da entrega, devemos entregar “em algum lugar”. Assim sendo, as entregas devem ser feitas “em domicílio”, da mesma forma que faríamos as entregas “em casa, no lar, no escritório, no quarto do hotel, no apartamento 209”.
Com os verbos morar, residir, situar e com os adjetivos residente e domiciliado, também devemos usar a preposição “em”. Quem mora sempre mora “em algum lugar”; quem é residente e domiciliado é residente e domiciliado “em” algum lugar.
Em linguagem “cartorial”, é frequente lermos coisas do tipo: “Fulano de Tal, residente e domiciliado à Rua das Palmeiras”; “Dr.Beltrano de Tal, com escritório sito à Avenida Paulista…”
Se, em vez de rua ou avenida, tivéssemos um substantivo masculino, ninguém diria: “Fulano de Tal, residente e domiciliado “ao” Beco das Garrafas”; “Dr. Beltrano de Tal, com escritório sito “ao” Largo do Machado…”
Se o Fulano de Tal é residente e domiciliado “no” Beco das Garrafas e se o Dr. Beltrano de Tal tem escritório sito “no” Largo do Machado, por uma questão mínima de coerência, o primeiro deve ser residente e domiciliado “na” Rua das Palmeiras e o outro deve ter escritório sito “na” Avenida Paulista. E, para ficar melhor ainda, em vez do “burocrático” sito, use “situado na Avenida Paulista”. É correto e muito mais simples e claro.
Outro exemplo de “burocratês” é o tal de “à folhas 23 e 24”. Primeiro, o uso do acento indicativo da crase não se justifica, pois certamente não há artigo definido. No mínimo, deveria ser “às folhas 23 e 24”. Melhor seria “nas folhas 23 e 24”.
E, pior ainda, é “à folhas 23”. Nesse caso, não há defesa. Não seria mais simples dizer “na folha 23”? 

A preposição esquecida
Todos vocês, provavelmente, foram obrigados a decorar uma famosa lista: a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre…
Se isso já faz muito tempo, eu refresco a sua memória: são as preposições.
É bom recordar, porque muita gente boa deve ter esquecido as coitadinhas.
Alguns confundem “com” e “contra”. Você sabe quando é que o Flamengo vai jogar com o Vasco? Nunca! Eternamente um jogará contra o outro. Num jogo de tênis, se o Gustavo Kuerten jogar com o Fernando Melligeni, é jogo de duplas; se o Guga jogar contra o Melligeni, é jogo de simples. Eles serão adversários.
Há quem confunda sob (embaixo) e sobre (por cima). Uma lágrima só correrá “sob a face” se for um “choro interno”. Certamente a lágrima correrá sobre a face.
Há, ainda, aqueles que simplesmente ignoram a preposição “a”. Temos uma propaganda em que a loja oferece para seus fregueses “cheques só para daqui 45 dias”. Frase sem preposição merece cheque sem fundos. Devemos dizer “daqui a 45 dias”. É o mesmo caso de “de hoje a uma semana”, “de janeiro a dezembro”. Portanto, o cheque deve ser para “daqui a 45 dias”.
Outro caso em que a preposição “a” está definitivamente esquecida é o famoso “lava jato”. Nesse caso, de duas, uma: ou “lava a jato” ou criamos um novo substantivo composto “lava-jato” (necessariamente com hífen).
E por fim o caso do “vivo”, que podemos observar no canto da telinha quando temos uma transmissão “ao vivo”. Ora, se a transmissão é sempre ao vivo (nenhum canal de televisão transmite “vivo”), de onde saiu a mania de usar somente “vivo”?
Alguns alegam problema de espaço na telinha. Não acredito. Para mim, deve ter sido mais uma “macaquice” nossa, mais uma imitação dos modelos americanos. Se eles usam simplesmente “live”, que fizemos nós? Trocamos o correto “ao vivo” pelo questionável “vivo”.
Pelo menos a Rede Globo, devidamente alertada, e depois de muito sofrimento, timidamente começa a mudar. Já tivemos a oportunidade de ver o “ao vivo” em algumas transmissões recentes.
Temendo pela extinção, é bom lançarmos uma nova campanha: “Salvem as preposições”. 
 
DELE ou DE ELE?

Não há dúvida alguma: eu cheguei antes dele, eu gosto dele e o livro é dele.
A polêmica surge quando “eu chego antes DELE ou DE ELE sair”. De acordo com a gramática normativa, a forma “dele” não pode ser sujeito da oração, porque não há “sujeito preposicionado”. Assim sendo, se houver após o “dele” um verbo no infinitivo, devemos separar a preposição do pronome na função do sujeito: “Eu cheguei antes DE ELE sair”.
Essa regra, entretanto, não é rígida. No Brasil, não há dúvida de que a forma mais usada é “cheguei antes dele sair”. É assim que a maioria dos brasileiros fala. O mestre Adriano da Gama Kury, entre outros estudiosos ilustres do nosso idioma, considera a forma preposicionada (=cheguei antes dele sair) uma variante linguística válida.
É o mesmo caso de “está na hora da onça beber água”. Diz o mestre Evanildo Bechara: “A lição dos bons autores nos manda aceitar ambas as construções, de a onça beber água e da onça beber água”.
Por outro lado, é importante observar que, em geral, os concursos públicos exigem a forma tradicional: “Cheguei antes de ele sair”; “Está na hora de a onça beber água”.
O mesmo se aplica à contração da preposição com o artigo: “O bando invadiu o Banco do Brasil antes de a agência abrir”; “O diretor viajou para Brasília apesar de a reunião ter sido transferida”; “A possibilidade de os políticos não aceitarem o projeto é muito grande”…
Resumindo: o segredo para a separação da preposição do artigo ou do pronome é a presença do verbo, sempre no infinitivo. 

O verbo ADEQUAR é defectivo ou não?

Todos nós aprendemos que o verbo ADEQUAR é defectivo, ou seja, é defeituoso, não tem conjugação completa.
A dúvida se deve ao fato de o dicionário Houaiss considerar completa a conjugação do verbo ADEQUAR.
É polêmica na certa.
A realidade é que, para a maioria dos nossos gramáticos, o verbo ADEQUAR é defectivo: no presente do indicativo, só tem a primeira pessoa do plural (=nós adequamos) e a segunda pessoa do plural (=vós adequais); no presente do subjuntivo, não há pessoa alguma. É essa a visão dos professores que organizam a maioria dos nossos concursos.
Há, entretanto, um bom número de estudiosos, entre eles a equipe que organizou o dicionário Houaiss, que já aceita a conjugação completa do verbo ADEQUAR: 

PRESENTE DO INDICATIVO / PRESENTE DO SUBJUNTIVO

Eu adéquo que eu adéque
Tu adéquas que tu adéques
Ele adéqua que ele adéque
Nós adequamos que nós adequemos
Vós adequais que vós adequeis
Eles adéquam que eles adéquem
Segundo a tradição gramatical, entretanto, o verbo ADEQUAR é defectivo. Verbo defectivo é aquele que tem defecção (=falta de algumas formas). O verbo ADEQUAR, por exemplo, só apresenta as formas arrizotônicas (=sílaba tônica fora da raiz). Em termos práticos, significa que não tem as três pessoas do singular e a 3a do plural (=eu, tu, ele e eles) do presente do indicativo e, consequentemente, nada no presente do subjuntivo.
Para ficar bem claro: 

PRESENTE DO INDICATIVO / PRESENTE DO SUBJUNTIVO

Eu - -
Tu - -
Ele - -
Nós adequamos -
Vós adequais -
Eles - -
Nos tempos do pretérito e do futuro, tudo normal: ele adequou, adequava, adequara, adequará, adequaria, adequando, adequado…
Numa frase do tipo “É preciso que a nossa empresa SE ADÉQUE ou SE ADEQÚE à realidade do mercado”, a solução é: “…que a nossa empresa FIQUE ADEQUADA à realidade do mercado”. 

Verbos, verbos, verbos…

Outro verbinho “problemático” é o EXTORQUIR. Além de defectivo (=eu “extorco” não existe), temos um problema semântico.
O verbo EXTORQUIR vem do latim extorquere (=arrancar alguma coisa de alguém sob tortura). O prefixo “ex” significa movimento para fora (=arrancar) e torquere é torcer (=implícita aqui a ideia de tortura). Isso significa que o verbo EXTORQUIR, desde a sua origem, é usado como “arrancar”.
É correto, portanto, quando ouvimos que “o policial extorquiu a confissão do criminoso” ou “o sequestrador está extorquindo dinheiro da família do empresário”. Inadequado é “alguém extorquir alguém”. Na frase “bandido está extorquindo comerciante”, temos o mau uso do verbo extorquir.
Para você não errar, use o seguinte “macete”: só use o verbo EXTORQUIR se ele for substituível por “arrancar”.
Observe a diferença:
“…extorquir a confissão do criminoso” = “arrancar a confissão”; “…extorquir dinheiro da família” = “arrancar dinheiro”;
“…extorquir o comerciante” = inadequado, porque não é possível “arrancar” o comerciante;
“…extorquir a família do sequestrado” = inadequado também,
porque não é possível “arrancar” a família do sequestrado.
Outros verbos que merecem atenção são EXPLODIR, ABOLIR e DEMOLIR. São todos defectivos: só existem nas formas verbais em que após a raiz aparecem as vogais “e” ou “i”: explode, explodem, explodindo, abolimos, abolido, demolimos, demoliu, demolindo…
Assim sendo, rigorosamente não “existem” formas como “expludo ou explodo, abulo ou abolo, demula ou demola”. 

Ele foi PEGO ou PEGADO em flagrante?

Existem alguns verbos que nos deixam de cabelo em pé: GANHO ou GANHADO, GASTO ou GASTADO, PAGO ou PAGADO, PEGO ou PEGADO?
Alguns gramáticos defendem o uso exclusivo das formas clássicas: GANHADO, GASTADO, PAGADO e PEGADO. Outros preferem o uso exclusivo daquelas formas que o brasileiro consagrou: GANHO, GASTO, PAGO e PEGO.
Há ainda os moderados. São aqueles que aceitam as duas formas de acordo com a regra dos particípios abundantes:
Após os verbos TER ou HAVER, devemos usar a forma
clássica: tinha aceitado, havia suspendido, tinha ganhado, havia gastado, tinha pagado;
Após os verbos SER ou ESTAR, usamos a forma irregular: foi
aceito, estava suspenso, fora ganho, era gasto, será pago.
O mestre Celso Cunha defende o uso de ganho, gasto e pago após qualquer verbo auxiliar: ser ou ter ganho, ser ou ter gasto. Assim sendo, “a conta foi paga”, mas “ele tinha pago ou pagado a conta”.
Concordo com o professor Celso Cunha. Não podemos jogar no lixo as formas clássicas nem ignorar as novidades linguísticas. Incluo ainda o verbo PEGAR. A forma PEGADO estará sempre correta, mas a forma PEGO está consagradíssima: “Ele tinha PEGADO os documentos” e “Ele foi PEGO em flagrante”.
Inaceitáveis ainda são as tais histórias de “ele tinha chego” e “ele tinha trago”. Nesse caso, no padrão culto da língua portuguesa, as formas clássicas estão preservadas: “ele tinha chegado” e “ele tinha trazido”. 

Os infinitivos devem flexionarem ou não flexionar???
Nas locuções verbais, usamos o infinitivo impessoal, ou seja,
aquele que não se flexiona nunca: “Os infinitivos não DEVEM FLEXIONAR-SE”; “Os alunos VÃO SAIR mais cedo”; “Os dois zagueiros PODEM SER expulsos”.
Devemos tomar um cuidado especial quando as palavras estão fora de lugar ou quando a locução verbal fica separada por uma intercalação qualquer: “As crianças FORAM todas TOMAR banho”; “Os políticos DEVERIAM, devido à urgência, ANALISAR melhor este caso”. De qualquer modo, o infinitivo, em locuções verbais, não se flexiona.
Fora das locuções verbais é que o infinitivo provoca problemas:
“Os técnicos estão aqui para RESOLVER ou RESOLVEREM o problema”???
Embora alguns autores aceitem a concordância no plural, eu sou a favor do uso do infinitivo não flexionado, ou seja, no singular. Existe uma antiga regrinha que defende o uso do infinitivo no singular sempre que o seu sujeito for o mesmo da oração anterior: 1ª oração: “Os técnicos estão aqui” (sujeito = os técnicos); 2ª oração: “para resolver o problema” (sujeito oculto = eles, os técnicos).
O infinitivo só é obrigado a se flexionar (=ir para o plural) se o seu sujeito for diferente do sujeito da oração anterior: “O diretor deu uma ordem expressa para os técnicos RESOLVEREM o problema ainda hoje”. Quem deu a ordem foi o diretor (= sujeito da primeira oração), mas quem vai resolver o problema são os técnicos (= sujeito da segunda oração). 

Ele mandou as pessoas SAIR ou SAÍREM?
Eis um belo caso polêmico.
1) Há quem afirme que a flexão do infinitivo é obrigatória: “Mandou as pessoas saírem”. O argumento é simples: quem mandou foi “ele” (sujeito), mas quem vai sair são “as pessoas” (sujeito plural da segunda oração). Seria o mesmo caso de “Nós (sujeito) deixamos as secretárias (sujeito) resolverem o caso”.
2) Há quem defenda a tradição gramatical: após verbos causativos e sensitivos (=mandar, deixar, fazer, ver, ouvir), o infinitivo não se flexiona: “Ele mandou as pessoas sair” e “Nós deixamos as secretárias resolver o caso”.
3) A tendência da maioria dos estudiosos é aceitar as duas formas. Seria, portanto, um caso de concordância facultativa.
Esta dúvida é bem marcante quando o sujeito do infinitivo aparece anteposto (antes do infinitivo): “…mandou as pessoas sair ou saírem”; “…deixamos as secretárias resolver ou resolverem o caso”.
Quando o sujeito do infinitivo aparece posposto (depois do infinitivo) ou expresso por um pronome pessoal oblíquo, é flagrante a preferência pelo uso do infinitivo não flexionado: “Deixai VIR a mim as criancinhas”; “Ele mandou-as SAIR”.
Para facilitar nosso dia a dia, minha sugestão é a seguinte:
Se o sujeito vier claramente expresso antes do infinitivo, a concordância deve ser feita:
“O diretor mandou seus funcionários SAÍREM.”
“O plano fez preços DESPENCAREM.”
Se o sujeito não vier claramente expresso antes do infinitivo, a concordância é facultativa. A preferência é deixar o infinitivo no SINGULAR:
“Deixai VIR a mim as criancinhas.”
“Mandei ENTRAR todos os convidados.”
Se o sujeito do infinitivo for expresso por um pronome oblíquo (=os, as, nos…), devemos usar o verbo no SINGULAR:
“Mandei-os ENTRAR.”
“Ele não as deixou FALAR.” 

A persistirem ou AO persistirem os sintomas
Na televisão, após a propaganda de qualquer medicamento, aparece a seguinte mensagem: “A persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado”. A dúvida surge porque, às vezes, a mensagem é: “Ao persistirem os sintomas, o médico deverá ser consultado”.
Leitores querem saber qual é a forma correta: “A persistirem os sintomas” ou “AO persistirem os sintomas”?
A minha preferência é “a persistirem os sintomas”, pois temos aqui uma ideia condicional: “se persistirem os sintomas”, “caso persistam os sintomas”.
Não é que a forma “ao persistirem os sintomas” esteja errada. Quando usamos a forma “ao” antes de verbo no infinitivo, temos uma ideia temporal, e não condicional. É como se disséssemos “quando os sintomas persistirem”. Seria semelhante ao caso de “ao sair, apague a luz”, ou seja “quando sair, apague a luz”.
O pecado maior, portanto, não é o fato de a frase estar certa ou errada, é a falta de clareza. Afinal, é para consultar o médico se os sintomas persistirem ou quando os sintomas persistirem?
É a mania de falar difícil. É o ultrapassado conceito de que falar bem é falar difícil. Seria muito mais simples e claro se a mensagem fosse: “se os sintomas continuarem, consulte um médico”.
Uma certeza, porém, todos nós devemos ter: consultar um médico.
Melhor mesmo é toda a população brasileira ter acesso a um médico e abandonar o perigoso hábito da automedicação. Sob orientação médica, os sintomas provavelmente não persistirão. 

As luzinhas ou as luzezinhas de Natal?
Os sufixos diminutivos “-inho” e “-zinho” devem ser usados conforme o final da palavra básica: usamos indiferentemente os sufixos “-inho” ou “-zinho” se a palavra básica termina por vogal átona ou consoante (exceto “s” e “z”): corpinho ou corpozinho, florinha ou florzinha.
Embora a palavra DEVAGAR seja advérbio, no português falado no Brasil consagrou-se o seu uso no diminutivo em lugar do superlativo. Em vez de “muito devagar”, temos o “devagarinho” e o “devagarzinho”.
É flagrante a preferência pelo uso do sufixo “-inho” para as palavras terminadas por vogal átona (sapato-sapatinho, casa-casinha, dente-dentinho) e do sufixo “-zinho” para as terminadas por consoante (mar-marzinho, papel-papelzinho).O sufixo “-inho” deve ser usado para as palavras terminadas por “s” ou “z” (lápis-lapisinho, cruz-cruzinha, rapaz-rapazinho).
Devemos usar o sufixo “-zinho” para as palavras terminadas por
vogal tônica, nasal ou ditongo (café-cafezinho, siri-sirizinho, irmã-irmãzinha, bem-benzinho, álbum-albunzinho, mão-mãozinha, pônei-poneizinho, chapéu- chapeuzinho).
Quanto ao plural dos diminutivos, há duas regras básicas:
1a) Se usamos o sufixo “-inho”, basta a desinência “s” no final: livro – livr + inho = livrinhos; casa – cas + inha = casinhas; rapaz – rapaz + inho = rapazinhos;
2a) Se usamos o sufixo “-zinho”, devemos pôr os dois elementos no plural sem o “s” do substantivo: animal = animal + zinho – animai(s) + zinhos = animaizinhos; pastel = pastel + zinho – pastei(s) + zinhos = pasteizinhos; pão = pão + zinho – pãe(s) + zinhos = pãezinhos.
Assim sendo, de acordo com as regras, teríamos: luz – luz + inha = luzinhas e flor – flor + zinha – flore(s) + zinhas = florezinhas.
Para terminar duas observações:
1a) Para o acadêmico Evanildo Bechara, pazinhas é o plural do diminutivo de pá (pazinha = pá + zinha – pazinhas). E pazezinhas seria o plural do diminutivo de paz (pazinha = paz + inha – paze(s) + inhas = pazezinhas). Em razão disso, também deveríamos aceitar as luzezinhas (luz + inha – luze(s) + inhas = luzezinhas).
2a) Para o mestre José Oiticica, o normal seria “florinhas ou florzinhas”, que a língua padrão evita.
Por isso tudo, não vejo por que impor uma forma como correta e outra como errada. Em razão disso, podemos aceitar os dois plurais: florezinhas e florzinhas, barezinhos e barzinhos, luzinhas e luzezinhas. 

Um milhão de dúvidas ou mil dúvidas?

Num anúncio comercial, foi possível ouvir claramente: “Isto é para atender as minhas milhares de fãs”, dizia o primeiro. E o outro retrucava: “E isto é para as minhas milhões de fãs”.
Sinto muito desapontar os nossos artistas, mas o correto é “os meus milhares de fãs” e “os meus milhões de fãs”, mesmo se os fãs forem apenas mulheres.
O problema é que MILHAR, MILHÃO, BILHÃO, TRILHÃO … são substantivos masculinos. Os artigos, pronomes ou numerais que antecedem a MILHAR e MILHÃO devem, portanto, ficar no masculino: “OS MILHARES de crianças fugiam com muito medo”; “Mais de DOIS MILHÕES de pessoas assistiram ao espetáculo”, “Seria capaz de fazer UM MILHÃO e MEIO de embaixadinhas”.
Assim sendo, as frases “Tenho uma milhão de dúvidas” e “Umas três milhões de mulheres” estão erradas. O certo é: “Tenho UM MILHÃO de dúvidas” e “UNS três MILHÕES de mulheres”.
Quanto ao numeral MIL, o problema é outro: não se usa UM ou UMA antes de MIL. Não há necessidade de se escrever “Recebeu um mil reais”, “Uma mil pessoas compareceram à feira” ou “Tenho uma mil dúvidas”. Basta: “Recebeu mil reais”, “Mil pessoas compareceram à feira” e “Tenho mil dúvidas”. É importante lembrar que o numeral que antecede a MIL deve concordar em gênero com o substantivo a que se refere: “DUAS mil pessoas receberam DOIS mil dólares”; “Tenho DUAS mil dúvidas” e “O garoto fez quarenta e UMA mil, SETECENTAS e oitenta e DUAS embaixadinhas”.
Um milhão de pessoas já CHEGOU ou CHEGARAM?
Tanto faz. O verbo pode ficar no singular para concordar com MILHÃO, que é um substantivo masculino no singular, ou no plural para concordar atrativamente com o especificador “pessoas”.
Quando o verbo é de ligação (ser, estar, andar, ficar, continuar…), é visível a preferência pela concordância com o especificador: “Um milhão de reais FORAM GASTOS na obra”; “Meio milhão de crianças já FORAM VACINADAS”; “Um milhão de mulheres ESTÃO GRÁVIDAS”.
Alguém diria que “Um milhão de mulheres ESTÁ GRÁVIDO”??? 

A dona-de-casa ou a dona de casa?
Dona de casa sofre até na hora de ser escrita. É com hífen ou não?
Segundo o dicionário Aurélio, devíamos usar hifens (ou hífenes, como preferem alguns): dona-de-casa. O dicionário Houaiss nos ensinava que devíamos escrever sem hífen: dona de casa.
E agora, que fazer?
De acordo com as regras ortográficas anteriores ao novo acordo, devíamos ligar por hífen “os elementos das palavras compostas em que se mantém a noção da composição, isto é, os elementos das palavras compostas mantêm a sua independência fonética, conservando cada um a sua própria acentuação, porém formando o conjunto perfeita unidade de sentido”.
Dentro desse princípio, devíamos usar o hífen nas palavras compostas em que os elementos, com a sua acentuação própria, não conservam, considerados isoladamente, a sua significação, mas o conjunto constitui uma unidade semântica.
Para ficar mais claro, é interessante observarmos um exemplo inquestionável: copo-de-leite e copo de leite.
Em copo de leite, sem hífen, cada elemento mantém a sua significação: copo é copo e leite é leite; em copo-de-leite, com hifens, temos um conjunto com uma nova unidade de sentido: copo-de-leite é uma planta.
A dúvida quanto à dona de casa era se o conjunto forma uma unidade de sentido ou se cada elemento conserva isoladamente sua significação.
Esse tipo de dúvida acabou com o novo acordo ortográfico. A partir de agora, os compostos com elemento de conexão só receberão hifens se for palavra ligada à botânica ou à zoologia: copo-de-leite, banana-da-terra, joão-de-barro, galinha-d’Angola…
Isso significa que os compostos com elementos de conexão que não são nomes de animais ou plantas devem ser grafados sem hífen: pé de moleque, pé de cabra, general de divisão, pão de ló, fim de semana, disse me disse, dia a dia, passo a passo…
Assim sendo, agora não há mais dúvida: DONA DE CASA deve ser escrita sem hifens. 

Não confunda gênero com sexo

Cadeira é um substantivo feminino e banco é masculino. Por mais que você examine uma cadeira e um banco, não encontrará nenhum sinal do sexo feminino na cadeira nem do sexo masculino no banco. Bancos e cadeiras não mantêm relações sexuais para fazer “banquinhos”!!!
Cadeira não é um substantivo feminino porque termina em “a”. Existem várias palavras terminadas em “a” que são masculinas: o problema, receber um tapa, dar dois telefonemas, duzentos gramas de presunto…
A distinção do gênero nos substantivos não tem fundamentos racionais. Quem determina o gênero é a tradição fixada pelo uso. A comparação com outras línguas, mesmo de origem latina, comprova a inconsistência do gênero gramatical: a viagem / el viaje (espanhol); o sangue / la sangre (espanhol), la sang (francês)… 

Nossos leitores têm algumas dúvidas:
1a) Personagem é masculino ou feminino?
2a) Qual é o feminino de poeta: a poetisa ou a poeta?
Chamamos de SOBRECOMUNS os nomes de um só gênero gramatical que se aplicam, indistintamente, a homens e a mulheres: o cônjuge, o indivíduo, o sósia, a criança, a pessoa, a vítima…
São chamados de COMUNS DE DOIS os substantivos que têm uma só forma para os dois sexos. A distinção é feita pela anteposição de “o”, para o masculino, e “a”, para o feminino: o/a artista, o/a doente, o/a mártir, o/a jovem…
Na sua origem, PERSONAGEM era um substantivo sobrecomum do gênero feminino, ou seja, “a personagem” poderia ser usada tanto para a mulher quanto para o homem. Hoje em dia, porém, PERSONAGEM tornou-se um substantivo comum de dois: a personagem, para mulheres, e o personagem, para homens. O dicionário Houaiss e o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras consideram PERSONAGEM substantivo de dois gêneros, ou seja, o/a personagem.
Quanto ao feminino de POETA, temos uma bela polêmica. Segundo a tradição e os nossos principais dicionários, o feminino de poeta é POETISA. Recentemente, no meio artístico, tornou-se moda distinguir A POETISA (=pessoa do sexo feminino que faz poesia) de A POETA (=mulher que faz poesia de reconhecida qualidade literária). Trata-se de um juízo de valor que ainda não tem o respaldo da maioria dos estudiosos e de nossos principais dicionários. Se essa moda “vai pegar”, só o tempo dirá.
Segundo o mestre e acadêmico Evanildo Bechara:
a) são masculinos: o…clã, champanha, dó, formicida, grama (unidade de massa/peso), milhar, pijama, sósia, telefonema…
b) são femininos: a…aguardente, alface, análise, bacanal, cal, cólera, dinamite, libido, síndrome, faringe… 
c) são indiferentemente masculinos ou femininos: o ou a…avestruz, crisma, diabete, gambá, hélice, ordenança, personagem, sabiá, sentinela, soprano, suéter, tapa, trama… 

Falando “certo”
Com muita frequência, perguntam a mim por que na Rede Globo só se fala “récorde” quando o “certo” é recorde.
Meus leitores têm alguma dose de razão. Digamos que, oficialmente, pelo menos segundo nossos principais dicionários e o Vocabulário Ortográfico publicado pela Academia Brasileira de Letras, o “certo” é dizer recorde (=”recórde”). Oficialmente, portanto, recorde é um vocábulo paroxítono (sem acento gráfico).
Eu gostaria de saber por que o “certo” é recorde se existe uma clara oscilação entre as duas pronúncias: recorde e récorde. Não é só na Rede Globo que ouvimos “récorde”. Uma boa parcela dos falantes da língua portuguesa, principalmente no Brasil, fala “récorde”. Pode até ser influência da Globo.
Outra verdade é que existem outras palavras que os nossos dicionários já registram com dupla pronúncia: xérox e xerox, dúplex e duplex, biótipo e biotipo… 

Então, por que não aceitar récorde como variante legítima de recorde?
O caso de biótipo é um belo exemplo. Os vocábulos terminados em “tipo”, normalmente, são proparoxítonos: protótipo, arquétipo, genótipo, estereótipo. Por isso, oficialmente era biótipo. No Brasil, porém, a pronúncia biotipo (paroxítona) está consagrada, e os nossos dicionários já registram as duas pronúncias: biótipo e biotipo. É importante lembrar que isso não é uma exceção nem anomalia gramatical, pois existem outras palavras paroxítonas terminadas em “tipo”: linotipo, logotipo…
Outro caso que me intriga é o da palavra necropsia. Se falamos autópsia e biópsia, por que não podemos falar “necrópsia”? Parece incoerência, principalmente quando os nossos principais dicionários e o Vocabulário Orográfico da ABL registram biopsia e biópsia, autopsia e autópsia, mas só registravam necropsia.
Por que não “necrópsia”, se é assim que muitos brasileiros, talvez a maioria, falam. A boa notícia é que a última edição do Vocabulário Ortográfico, publicada em 2009 pela Academia Brasileira de Letras, registra as duas formas: necrópsia e necropsia.
Em razão disso tudo, não entendo por que impor uma pronúncia como “certa” (recorde) e a outra como “errada” (“récorde”).
Em qualquer concurso, devemos respeitar a grafia oficial. Entenda-se como oficial a forma registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa publicado pela Academia Brasileira de Letras.
Segundo o acadêmico Evanildo Bechara:
São palavras oxítonas: cateter, Nobel, recém, refém, ruim, ureter…
São paroxítonas: avaro, caracteres, erudito, filantropo, ibero, látex, maquinaria, pudico, recorde…
São proparoxítonas: epíteto, ínterim, lêvedo, monólito, ômega…
Palavras que admitem dupla pronúncia: acróbata ou acrobata, crisântemo ou crisantemo, hieróglifo ou hieroglifo, Oceânia ou Oceania, ortoépia ou ortoepia, projétil ou projetil, autópsia ou autopsia, biópsia ou biopsia, necrópsia ou necropsia… 

A metamorfose e a metafonia
Metamorfose é uma palavra formada por elementos de origem grega: META, que significa “mudança”, e MORFO, que significa “forma”. Metamorfose, portanto, é a “mudança da forma”. Corresponde à palavra transformação, de origem latina: TRANS (=META) + FORMA (=MORFO). Os sufixos “-ose”, do grego, e “-ção”, do latim, significam “ato ou efeito da ação, processo”.
Morfologia é a parte da gramática que estuda o aspecto formal das palavras: gênero (masculino/feminino), número (singular/plural), grau (aumentativo/diminutivo, comparativo/superlativo), elementos formadores das palavras (raízes, prefixos, sufixos, radicais, desinências…).
Metáfora é aquela figura de estilo que se caracteriza por uma “mudança”: as palavras são usadas num sentido figurado devido a uma comparação subjetiva por semelhança. Quando afirmamos que “a menina é uma flor”, o substantivo FLOR está usado fora do seu sentido real (a flor propriamente dita). Queremos dizer que a menina é tão linda ou delicada quanto uma flor. Comparamos subjetivamente a beleza da menina com a beleza de uma flor. Isso é metáfora. 

E a metafonia?

O elemento grego FONIA – que conhecemos em sinfonia, telefone, microfone, fonética etc. – significa “som”. Metafonia, portanto, é a “mudança do som”. É o nome que se dá para um fenômeno curioso: são aqueles vocábulos em que a vogal tônica de timbre fechado /ô/ muda para timbre aberto /ó/, quando vão para o feminino ou para o plural: porco (/ô/) – porca e porcos (/ó/).
O problema é que existem palavras em que não ocorre metafonia: cachorro – cachorra e cachorros (/ô/). Existem aquelas que apresentam diferentes pronúncias: sogro (/ô/) – sogra (/ó/) e sogros (/ô/, no Brasil; /ó/, em Portugal).
Há palavras em que a metafonia acontece somente no plural: caroço – caroços; tijolo – tijolos; posto – postos; jogo – jogos…
Há palavras que não sofrem metafonia: bolso – bolsos; acordo – acordos; bolo – bolos; coco – cocos…
E há aquelas que nos deixam em dúvida: o plural de forno é “fôrnos” ou “fórnos”? Embora muitos pronunciem com timbre fechado, oficialmente devemos falar fornos com timbre aberto (/ó/).
Segundo o mestre Evanildo Bechara, sofrem metafonia (mudança de timbre na vogal tônica = /ô/ para /ó/): coro – coros; corpo – corpos; corvo – corvos; destroço – destroços; forno – fornos; foro – foros; fosso – fossos; miolo – miolos; poço – poços; socorro – socorros; torto – tortos; troco – trocos…
Não sofrem metafonia (=mantêm o timbre fechado /ô/): adornos, almoços, alvoroços, caolhos, contornos, esboços, esposos, globos, gozos, jorros, sogros, sopros, soros, transtornos… 

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